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Trabalho, wellness e o que a nova geração entende por equilíbrio

Depois de anos em que produtividade virou quase traço de personalidade, começou a surgir um movimento curioso: muita gente organizando a rotina em torno de corrida, pilates, beach tennis, musculação, trilha, yoga, qualquer coisa que faça o corpo sair do modo sobrevivência por algumas horas.

O wellness deixou de ocupar só o espaço da estética e entrou na conversa sobre saúde mental, energia e até identidade. E isso aparece em todo lugar: na quantidade de clubes de corrida que surgiram nos últimos anos, no crescimento dos esportes de raquete, no volume de conteúdo sobre rotina saudável que domina as redes e, principalmente, na forma como profissionais das novas gerações passaram a enxergar trabalho e qualidade de vida quase como assuntos inseparáveis.

Segundo o 12º Relatório Anual de Tendências Esportivas do Strava, a Geração Z foi a faixa etária que mais investiu financeiramente em esportes em 2025. O dado mais interessante não é o crescimento em si, mas o motivo: saúde mental apareceu à frente da preocupação estética.

A McKinsey identificou o mesmo comportamento em um estudo recente sobre wellness, mostrando que millennials e Gen Z têm colocado condicionamento físico, alimentação e bem-estar emocional no centro das decisões de consumo e estilo de vida.

O Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais em 2025, segundo dados do Ministério da Previdência Social. Ansiedade, burnout e depressão deixaram de parecer problemas distantes do ambiente corporativo e passaram a fazer parte da rotina de muita gente ainda muito jovem.

Então faz sentido que exista uma tentativa coletiva de criar relações mais sustentáveis com trabalho, descanso e desempenho. O problema da cultura da produtividade

Existe uma tensão real no ambiente corporativo atual. De um lado, pressão por entrega, disponibilidade constante, agenda lotada e a sensação de que estar cansado virou quase uma prova de comprometimento. Do outro, uma percepção cada vez mais clara de que esse modelo cobra um preço alto demais no longo prazo.

A Geração Z tem questionado isso de forma muito aberta não porque exista aversão ao trabalho, mas porque foi a primeira geração a entrar no mercado já familiarizada com burnout, ansiedade crônica e hiperconectividade. A partir disso, ideia de sucesso mudou um pouco.

Hoje, muita gente prefere uma rotina sustentável a uma rotina impressionante. E sustentabilidade aqui não significa baixa ambição, significa conseguir manter uma vida minimamente saudável sem transformar exaustão em estilo de vida.

Existe até um conceito que aparece bastante nas discussões atuais sobre comportamento organizacional chamado social recovery. A ideia é simples: descanso não acontece só no isolamento ou no silêncio... Interações leves, sem cobrança de performance, também ajudam o cérebro a sair do estado constante de alerta.

Talvez por isso o esporte tenha ocupado esse espaço. Principalmente porque ele tira as pessoas daquele estado de trabalho contínuo onde tudo parece urgente o tempo inteiro. Durante uma partida, ninguém está pensando no PPT da próxima semana ou respondendo mensagem no chat. O cérebro dá uma respirada.

A Organização Mundial da Saúde estima que investimentos em bem-estar podem gerar retorno direto em produtividade, engajamento e redução de absenteísmo. E o mais interessante é perceber que muitas vezes isso não exige grandes programas corporativos mirabolantes, às vezes começa em algo simples. Toda sexta, o computador fecha e a raquete sai da mochila

Na Singulari, sexta-feira virou dia de tênis. Toda semana, depois do expediente, o computador fecha e a raquete sai da mochila.  Existe algo curioso que acontece quando você joga com a mesma pessoa que, duas horas antes, estava debatendo estratégia em uma reunião. A conversa muda completamente e não porque alguém planejou uma grande iniciativa de cultura organizacional. Começou sem muito planejamento e continuou acontecendo porque as pessoas realmente gostam de estar ali.

Tem gente competitiva, gente que claramente vai mais pela conversa depois do jogo, gente que melhora tecnicamente a cada semana e gente que só quer acertar a bola uma vez sem passar vergonha e justamente por não existir obrigação ou discurso pronto em cima disso, o momento funciona.

Nenhuma dinâmica corporativa forçada consegue reproduzir o tipo de conexão que aparece quando as pessoas convivem sem precisar performar profissionalmente o tempo inteiro.

Os números ajudam a explicar um pouco dessa sensação: uma pesquisa da Eagle Hill Consulting mostrou que profissionais envolvidos em esportes coletivos tendem a confiar mais nos colegas e reconhecer melhor os pontos fortes uns dos outros. O estudo também identificou que equipes que praticam esportes juntas têm mais probabilidade de atingir metas de desempenho.

Claro que não é exatamente o tênis que gera resultado sozinho, o que muda é a dinâmica que ele cria.

Existe algo importante em compartilhar um ambiente onde o erro não vira problema sério, onde a conversa não gira em torno de entrega e onde as pessoas conseguem se enxergar além do cargo que ocupam. Principalmente em um contexto em que quase tudo hoje acontece por tela, call, áudio na velocidade 2x e notificação do grupo no telegram. O equilíbrio que ninguém explica direito

Equilíbrio entre vida pessoal e trabalho virou uma frase tão repetida que às vezes até parece vazia. Aparece em praticamente toda vaga, manifesto de cultura e apresentação institucional, só que, na prática, quase ninguém explica o que isso significa de verdade ou como isso funciona.

O equilíbrio não parece ser apenas dividir perfeitamente a vida em duas caixas separadas, até porque isso raramente acontece. Trabalho continua existindo fora do escritório, mensagens continuam chegando e dias difíceis continuam existindo. E o que parece agora é que o equilíbrio tem mais relação com construir uma rotina em que o trabalho não consuma completamente quem você é fora dele.

E é justamente isso que as novas gerações estão tentando proteger quando levam saúde, esporte e bem-estar tão a sério. Não como luxo, como manutenção básica da própria vida. Voltando para a quadra

Sexta-feira, depois do expediente, alguém pega a raquete, alguém perde feio no bate e sai, e todo mundo ri mesmo assim.

Mas o mais interessante é justamente isso: ninguém ali está tentando construir cultura naquele momento. Mas ainda assim, alguma coisa coletiva acontece, momentos assim fazem algo muito importante: lembram o time de que as pessoas que trabalham juntas são, antes de tudo, pessoas.

E que, às vezes, o melhor que se pode fazer pelo trabalho é justamente sair dele por algumas horas.

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